Todos nós temos objetivos, buscamos felicidade em muitos setores de nossas vidas, talvez uma das coisas que mais temos em comum é isso: A busca pela felicidade. 

Os antigos Sábios perceberam um padrão nesta busca e a partir de suas experiências místicas (Samadhi) ensinaram-nos os quatro objetivos últimos da vida humana: os PURUSHARTHAS.

Entende-se que todas nossas metas se encontram contidas neles, em DHARMA, ARTHA, KAMA e MOKSHA. Também através deles compreendemos melhor aquilo que chamamos de aspiração espiritual.

Como no aforismo advindo do Yajur Veda “yat piṇḍe tat brahmāṇde”, ou seja, “o que há no macrocosmo está também presente no microcosmo”, quando nascemos a disposição das estrelas, planetas e constelações anunciam como experienciaremos tais Purusharthas. 

  • Dharma Purushartha

Nascemos imersos em dúvidas. Na infância buscamos por respostas, das mais simples: “mãe por que o açúcar é doce?” também aquelas que levamos para vida toda: “mãe por que existimos?”.

Se perguntar um peixinho o que é a água, ele não saberia responder pois viveu sempre imerso nela. Nós também não sabemos qual é a natureza da vida. E isso é o Dharma: A natureza última do surgir das coisas.

Vejamos como isso se relaciona com nosso mapa astrológico:

Nosso Ascendente, ou casa 1 do mapa, é a primeira casa conecta a este Purushartha pois nela encontramos a natureza que da base a nossa manifestação. Em sânscrito ela foi chamada de Tanu, que podemos traduzir como corpo, isso porque nessa casa é onde ganhamos forma. Vivemos uma vida inteira e muitas vezes não reconhecemos nosso corpo, que foi nos cedido por nossos Pais de forma tão amorosa, para manifestar nossa Natureza, para vivermos nosso Dharma e por fim para realizar os ensinamentos dos Seres Santos o DHARMA LIBERTADOR.

Putra Bhava, ou casa 5 do mapa, é a segunda casa conecta a este Purushartha pois nela encontramos o potencial impacto que nossa natureza causará no mundo, ou seja, o Dharma que realizaremos nesta vida. Muitas vezes esta casa é associada a filhos, isso é verdade, mas também está ligada a discípulos, alunos e toda forma de propagação de uma linhagem pois é nessa casa que nossas ações se estendem a gerações seguintes.

Dharma Bhava, ou casa 9 do mapa, é a terceira casa conecta a este Purushartha, nela encontramo-nos com o Mestre espiritual, interno e externo, essa casa fala de nosso poorva-punya (ações meritórias de vidas passadas que resultam em bençãos nesta vida), nesta casa temos a experiência do estudo, aprimoramos a ética e virtudes espirituais, também é aqui que encontramos os estudos acadêmicos, visto que será este estudo que determina nossas ações como profissionais.

Em geral, estas três casas muitas vezes chamadas de DHARMA-TRIKONA trazem respostas sobre a ética, virtudes, valores e natureza do nativo. Através dos Planetas relacionados a estas casas compreendemos melhor como podemos guiar nossas ações de acordo com nossa natureza e com o Dharma que viemos realizar. 

  • ARTHA Purushartha

Somos assombrados com a maldição do “vives do suor da tua testa”, é impressionante como dedicamos tanto tempo de nossas vidas em busca da estabilidade material. Na verdade não há nenhum problema nisso, desde que esta estabilidade não seja um fim e sim um meio.

Muitas vezes permitimos ser escravizados em prol de um suposto equilíbrio material, vendemos nossa saúde, tempo e bem-estar para um dia nos deitarmos na suposta rede da aposentadoria ideal, que por fim apenas nos lembrará que ainda não encontramos resposta às questões que fizemos às nossas mães.

Artha purusharta é a meta da autossuficiência, é a meta de sermos capazes de sustentarmos nosso nascimento, e para concluí-la com sabedoria, precisamos compreender o que realmente traz equilíbrio e sustenta nossa vida. Uma vida simples, sem exageros, metas que resultam em virtudes e que aperfeiçoam nossa natureza. Aprender a lidar com os desafios diários e não alimentar desejos descontrolados se provará o melhor caminho.

Vejamos como isso se relaciona com nosso mapa astrológico:

Dhana Bhava, ou casa 2 do mapa, é a primeira casa que se relaciona com este Purushartha pois nela encontramos nossas necessidades básicas de subsistência: alimentação, vestimenta, indumentárias e higiene. Isso nos ensina que parte de nossa busca por dinheiro deve ser para termos condições de manter uma vida digna, os caprichos aqui se mostram o verdadeiro empecilho para sermos felizes. Nesta casa também encontramos a herança de costumes familiares que recebemos. Devemos perguntar se o que perseguimos é nosso sonho ou de nossos ancestrais.

Ari Bhava, ou casa 6 do mapa, é a segunda casa que se relaciona com este Purushartha, nela encontramos todos os desafios diários: como inimigos, doenças, estresse e trabalho árduo. Essa casa pode trazer resultados excelentes, desde que percebamos que nossos verdadeiros inimigos e doenças, na verdade estão em nossa mente: as delusões e Venenos Mentais. Aprendendo que é do esforço contínuo que surge resultado obteremos êxito.

Karma Bhava, ou casa 10 do mapa, é a terceira casa que se relaciona com este Purushartha pois ela revela para nós os frutos de nossas ações no mundo. Essa casa tem profunda relação com nossa vida pública e profissional. Através dela podemos construir bases solidas para impactar de forma benéfica as pessoas e mundo ao nosso redor, portanto seguindo nossos valores éticos e morais dentro de nossa esfera profissional cumpriremos com nosso Dharma e como resultado obteremos estabilidade.

Em geral, essas três casas muitas vezes chamadas de ARTHA-TRIKONA, nos ensinam que os desafios a subsistência na verdade surgem da mente e de como nos posicionamos perante a vida. Confiança, Disciplina, Ritmo e Seriedade são caracterizas poderosas para realizarmos Artha Purushartha. Através dos Planetas relacionados a essas casas, compreendemos melhor como podemos alcançar estabilidade financeira através de uma profissão surgida de nossas qualidades despertadas e de hábitos virtuosos de consumo.

  • Kama Purushartha

Tudo o que fazemos, fazemos em busca de felicidade. Nenhum ser vivo toma uma ação sem antes concluir que aquilo é melhor a ser feito e que lhe trará felicidade. A busca por felicidade se confunde com satisfação dos sentidos e provavelmente aqui viva nossa principal falha na busca pela libertação do sofrimento.

Kama é objetivo da satisfação, porém não reconhecemos sua origem real e acabamos nos degradando nessa busca. Ações verticalizadas, ou ações transcendentais, são de fato o que trará satisfação, porque a libertação do sofrimento trará real felicidade

Vejamos como isso se relaciona com nosso mapa astrológico:

Sahaja Bhava, ou casa 3 do mapa, é a primeira casa que se relaciona a este Purushartha pois nela encontramos os Hobbies, desejos de curto prazo, busca por prazeres, viagens curtas etc. Essa casa é associada a irmãos pois são eles nosso primeiro objeto de comunicação, mas em verdade nessa casa encontramos todas as habilidades de comunicação escrita, virtual e abstratas. Em geral, esta casa está associada a coragem e a busca por aventuras.

Yuvatii bhava, ou casa 7 do mapa, é a segunda casa que se relaciona a este Purushartha pois nela encontramos as relações amorosas e sociais. É a expressão máxima da afetividade, na qual está a vida social, conjugal e sexual, ou seja, a maior parte dos objetos de busca por satisfação dos desejos. É importante lembrarmos que a casa 7 também foi categorizada de Maraka, ou assassina, isso porque a busca desenfreada por prazeres sensuais drena nosso ayus, ou vitalidade.

Labha bhava, ou casa 11 do mapa, é a terceira casa que se relaciona a este Purushartha. Nela encontramos os desejos de longo prazo, ou seja, todos os objetivos materiais que estabelecemos como meta. Também aqui encontramos nossa vida em meio a grupos, portanto nosso status faz parte desta casa também.

No geral, estas três casas, também chamadas de Kama-Trikona, nos ensinam que a busca por satisfação deve ser cosubstanciada pela sabedoria que discerne o real do ilusório. Para obtermos sucesso em nossas empreitadas afetivas, profissionais e familiares é necessário ter sinceridade, profundidade e constância, além de um otimismo acompanhado de sabedoria que enxerga o potencial positivo do surgir das coisas.

  • MOKSHA PURUSHARTHA

Nos tempos atuais, a liberdade tem sido tema de discussão, porém, em verdade, ela sempre foi pauta entre os grandes Sábios. Mesmo não estando reclusos em nossas casas, ainda assim, sentiremos que vivemos limitados.

Moksha é a libertação, ou melhor, é a liberação das amarras do autocentrismo. Quando seguirmos nossa natureza verdadeira (Dharma) com retidão, quando nossa estabilidade material for atingida com equilibro e sem exageros, e por fim, quando nos sentirmos contentes e satisfeitos com a forma que a vida tomou diante de nossos olhos, então Moksha se revelará em nosso coração.

Em geral, buscamos a libertação por uma incompetência na realização de Artha e Kama. Reforço que estes dois purushasthas devem ser realizados com a sabedoria que observa a real fonte de felicidade para que, quando chegarmos a Moksha, não seja apenas escapismo.

Vejamos como isso se relaciona a nosso mapa astrológico:

Matri Bhava, ou casa 4 do mapa, é a primeira casa que relaciona a este Purushartha, pois aqui encontramos os primeiros objetos de agarramento, a família, bens materiais, veículos, riqueza, etc. Precisamos compreender nosso papel familiar, executá-lo e, no momento certo, reconhecer que toda a humanidade é uma grande família. Portanto, se agarrar cegamente a apenas um grupo de pessoas não será a real fonte de felicidade.

Randra Bhava, ou casa 8 do mapa, é a segunda casa que se relaciona a este Purushartha pois é relacionado a certos temas espirituais, como conhecimento sobre alquimia, magia, psicologia etc., nesta casa também estão simbolizados a busca por poderes místicos, também a capacidade inata que possuímos de reemergir fortes de situações dolorosas e, portanto, transformadoras.

Vyaya Bhava, ou casa 12 do mapa, é a terceira casa que se relaciona a este Purushartha, pois é relacionado a locais de isolamento como mosteiros, ashrams, cavernas etc., esta casa também rege a vida austera, renúncia pelos prazeres e benefícios da vida material. Encontramos também citações de Vaharamihira usando desta casa em técnicas relacionadas a renascimentos futuros, ou seja, o destino após a morte.

Em geral, a partir das condições dos Planetas relacionados a estas casas, teremos mais entendimento de como proceder com essa etapa de nossa existência, o desapaixonamento daquilo que apenas nos causa sofrimento. Ser apegado às pessoas, à vida e às concepções que temos de mundo apenas nos enredará mais e mais no samsara. Portanto, como já nos ensinou Lama Tsongkapha, Sabedoria, Compaixão e Renúncia são os três aspectos do caminho à Libertação.

Guilherme Bitencourt

Guilherme Bitencourt

Astrólogo védico e coordenador de estudos budistas. Certificado pela Academia Brasileira de Astrologia Védica (ABAV) em nível Avançado, também realizou sua formação nos institutos Sri Ganesa e Jyotisha-shastra no Brasil. Palestrante nacional da Sociedade Teosófica do Brasil. Discípulo do mestre de tantra budista Lama Michel Tulko Riponche, estudante de Astrologia Kalachakra e Saptarisis.

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